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W. Edgar: Cinco Razões para Ler Rookmaaker Hoje

Cinco Razões para Ler Rookmaaker Hoje

William Edgar

Hans Rookmaaker nos deixou prematuramente aos 55 anos. Parecia ter tanto a contribuir. Entretanto, seu legado é inquestionável e muitos continuam perseverando no desafio de dar continuidade aos seus pensamentos. Sua dedicada filha, minha amiga Marleen, realizou a hercúlea tarefa, um ato de amor, de editar e publicar suas obras completas.[1] São surpreendentemente ricas e diversas.[2] Covenant College criou a Bolsa de Estudos Rookmaaker em Estudos de Jazz. O holandês L’Abri at Eck en Wiel está tão vivo quanto era quando foi fundado em 1971 pelo Dr. Rookmaaker e sua esposa.

A visão de Rookmaaker não tem escapado de críticas nem mesmo de seus antigos alunos.[3] É motivo de honra e não de vergonha. O professor Rookmaaker foi um mentor e amigo. Passamos muitas horas juntos, as quais foram fundamentais para minha formação como jovem cristão. Sou músico de jazz e suas ideias abriram meus olhos para a relação entre o jazz e o evangelho.

Minha missão é apresentar Cinco Razões para Ler Rookmaaker Hoje. Não é uma tarefa fácil. Poderiam ser 25! Mas aqui está o melhor que pude fazer.

1) “Me ensinou a compreender o que estava olhando. Me ensinou a ver”. É o que os filhos disseram sobre seu Papai Rookmaaker.[4] E isso é verdade para inúmeros discípulos. Rookmaaker levou muitos de seus alunos a museus, observando pinturas, às vezes por horas a fio, guiando seus olhares para enxergar coisas que não teriam visto imediatamente. Em seu best-seller, Arte Moderna e a Morte de uma Cultura, mostra ao leitor como “ler” uma pintura da esquerda para a direita. Em um exemplo memorável, afirma que Rembrandt solucionou o desafio de ser realista e, ao mesmo tempo, ter uma interpretação apropriada. Argumenta, por exemplo, que no desenho de Cristo na Estrada de Emaús, Rembrandt não precisa de uma auréola brilhante para ressaltar a divindade de Cristo, pois faz uso do ritmo discípulo-para-Cristo-para-discípulo-para-casa, levando o olhar para Cristo por meio da cadência do desenho.[5]

Tenho boas lembranças de viagens com Dr. Rookmaaker. Passamos pela Nova Inglaterra e amei vê-lo entusiasmado com a arquitetura colonial. “Está vendo quão elegante e simples esse exemplar de Cape Cod é?” Amava as janelas Tiffany da casa dos meus sogros. Ao mesmo tempo, lembro bem de seu desdém por qualquer coisa de má qualidade. Odiava o kitsch e quase se divertia ao desenganar pessoas que se deixavam apaixonar por esse tipo de arte. Muitos cristãos que encontrava estavam mal preparados para fazer julgamentos a respeito de pinturas. Se você cometesse o erro de dizer que uma pintura era boa porque era realista, logo o desprezava como um “naturalista”. Ou pior: “Esta é uma fotografia, não uma pintura”. (Ele pode ter subestimado as escolhas artísticas que fazem os fotógrafos!)

Um caso contado por Linette Martin é revelador. Parado diante de uma pintura por horas e horas seguidas, Rookmaaker fez uma pergunta atrás da outra: O que você vê? “É uma crucificação.” Sim, isso é óbvio, mas o que mais? “As cores parecem ter algum significado.” Sim, mas há mais alguma coisa? Após uma pausa, Rookmaaker declarou, “Bem, não tem mais nada: é só uma pintura ‘boba’. Só queria que você percebesse isso...”[6]

2) Hans Rookmaaker enxergava relações entre vários tipos de música e uma cosmovisão. Para mim, o mais importante como músico é a relação que ele estabeleceu entre o jazz e blues e a mensagem cristã. Seu grande livro no assunto, Jazz, Blues e Spirituals, foi publicado originalmente em holandês em 1959. Posteriormente, foi traduzido para inglês.[7] Recentemente, P & R Publishing sabiamente lançaram uma nova edição desse clássico.[8] Além disso, Rookmaaker escreveu diversos artigos sobre o assunto.

Esta não era uma questão puramente intelectual para o Dr. Rookmaaker. Ele amava música. Quando jovem, gastava todo o dinheiro que sobrava com discos de jazz. Sua esposa, Anky, disse-me uma vez que tocava música em casa o dia todo. Rookmaaker concentrou-se na música de Nova Orleans da década de 1920. Acreditava que depois desse período, o jazz tornou-se ordinário e comercial. Pior ainda: o jazz moderno cedeu à filosofia existencialista e perdeu sua pureza afro-americana original. Embora essa historiografia possa ser questionada, é óbvio o conhecimento extraordinário que Rookmaaker tinha de músicos e estilos que a maioria dos estadunidenses desconhece completamente. Não apenas Louis Armstrong e King Oliver, mas destacam-se também Clarence Williams e Barbecue Bob.

A música que para muitos dos dois lados do Atlântico era considerada carnal e até mesmo imoral, ele defendeu como profundamente cristã. Uma de suas comparações mais emocionantes é entre a música de King Oliver e Johann Sebastian Bach. Ambos eram calmos, confiantes, mas melódicos. O baixo contínuo é paralelo à seção rítmica; as vozes internas servem às mesmas funções.[9]

Um dos meus bens mais preciosos é um conjunto de capas de álbuns de vinil de sua série Fontana que conta com um encarte do álbum detalhando os instrumentistas. Rookmaaker sabia tudo a respeito de suas vidas e estilos musicais. Também tenho cópias de suas cartas a editores estadunidenses pedindo-lhes que lançassem álbuns para europeus. Sua profunda dedicação em promover essa forma de arte é impressionante.

Umas das áreas de interesse de Rookmaaker que mais aprecio são os spirituals. Amava os quartetos negros, como o Spirit of Memphis, cujas interpretações simples, mas profundas de verdades bíblicas continuam inspiradoras, setenta anos depois de terem sido gravadas. Amava também Mahalia Jackson, que pôde conhecer em 1960. Amava sua canção I’m Going to Move on up a Little Higher (“Vou Subir um Pouco Mais Alto”) com suas palavras sobre o céu, onde “Será sempre como vai, como vai, e nunca adeus.” Foi tocada em seu funeral.

3) Foi amigo e mentor de muitos. Certamente o foi para mim. Escreveu-me muitas cartas, hospedou-se conosco e conversamos até de madrugada. Lembro especialmente de músicas que costumava me mandar quando eu era líder de uma banda em Nova Orleans, contendo mensagens como “você precisa tentar soar assim.”

Dr. Rookmaaker era amigo e mentor de diversos artistas. Sempre tentava encorajá-los a serem “eles mesmos” e não se sentirem pressionados a evangelizar. Com o título A Arte Não Precisa de Justificativa, não queria dizer apenas que há espaço para criar arte na ordem criada.[10] Queria dizer que não é necessário defender a legitimidade de uma profissão como plataforma para evangelização. Ele era extremamente contrário a uma visão tão utilitária da vocação. Seu maravilhoso livro, O Dom Criativo, inclui uma “Carta à senhorita Stephenson”, na qual diz que ela deve realizar seu trabalho para a glória de Deus sem sentir uma pressão desnecessária para converter outras pessoas.[11]

Diversos artistas consideravam-se seus filhos ou filhas. Muitos deles começaram a caminhar com ele na Universidade Livre de Amsterdam (A VU). Um dos mais importantes é John Walford, que veio a ser professor de história da arte em Wheaton College, em Illinois, EUA. Suas disciplinas incluíam os mais diversos assuntos. Escreveu Grandes Temas na Arte, um guia muito útil de introdução à pintura.[12] Seguindo a inspiração de seu professor e aprimorando-a, ele apresenta aos alunos o que precisam saber sobre pinturas para examiná-las profundamente. É possível que Walford seja o maior especialista do mundo em Jacob van Ruisdael, um pintor de paisagens da Era de Ouro Holandesa.[13] Esse estudo ricamente ilustrado reflete claramente como van Ruisdael retrata o mundo sob uma lente bíblica, incluindo a glória das cenas e a escuridão ameaçadora da pecaminosidade.

Peter Smith, artista de xilogravura e impressão em relevo, também foi discípulo de Rookmaaker. Smith lembra de sua primeira visita ao Birmingham College of Art em 1967, quando estava decidido a abandonar as artes e voltar ao “ministério”, mas Rookmaaker convenceu-o a continuar. Depois observou “Agora reconheço a sabedoria da visão de Rookmaaker. Quando sentiu que os cristãos não estavam engajados nas artes, ficou claro que, de alguma forma, estávamos ficando para trás e precisaríamos de tempo, ou gerações, para tirar o atraso. A solução: engajar o maior número possível de cristãos. A partir disso, com a graça de Deus, algo de valor poderia surgir.”[14]

Várias outras personalidades tornaram-se amigos ou entusiastas de Rooky. Paul Clowney testemunhou sobre a influência do mestre em sua vida. William Dyrness foi particularmente influenciado por ele. Seu livro Rouault: Uma Visão do Sofrimento e da Salvação é uma obra prima.[15] Por último, mas não menos importante, Graham Birtwistlwe, que originalmente se opôs a Rooky, acabou parte do corpo docente da VU. É um especialista no movimento COBRA e “primitivismo” em arte. É curador de desenhos no Getty Museum fora de Los Angeles e foi influenciado por Rooky. E a lista continua.

4) A mão de Deus na história. É difícil encontrar um tema único que tenha impulsionado Rookmaaker em todas as suas investigações. No entanto, se houver, é o significado da história e, mais especificamente, a percepção da mão de Deus, embora Deus “ofereça o único alicerce apropriado para a vida de uma sociedade”.[16] Digo percepção, pois muitos dos interesses de Rookmaaker sobre história concentravam-se na crença de que Deus estava agindo apesar das circunstâncias. Em sua visão crítica sobre a mentalidade do Iluminismo, alertava contra confiar apenas em nossos sentidos, de acordo com a razão natural. Argumentava que a noção bíblica da verdade deveria incluir o reconhecimento da obra de Deus, que nem sempre é obviamente visível.

Um dos temas de sua visão da história é o julgamento e a redenção. Rookmaaker explicou repetidas vezes que as provações e tribulações desse mundo não são causadas diretamente por nossas ações insensatas. É possível que o sejam indiretamente, mas Deus declara seu julgamento sobre o mundo não em oposição ao seu propósito redentor e sim de acordo com seus desígnios de amor.[17] Os artigos de Rookmaaker estão repletos de referências bíblicas, particularmente dos Salmos e profetas, embora dedique um espaço considerável ao livro de Apocalipse. Talvez alguns se surpreendam ao encontrar tão rica familiaridade com as Escrituras em alguém cuja profissão é historiador da arte. Ele via a história da arte como um reflexo da história da filosofia que, por sua vez, foi historicamente influenciada.

É provável que muitas das preocupações de Rookmaaker tenham surgido a partir de suas experiências na prisão e o destino de judeus durante o Shoah. Seu amor pelo povo judeu partiu de várias fontes, inclusive de sua afeição por Rieke, uma jovem judia, a quem ele conduziu a um entendimento de toda a Bíblia, do Antigo e Novo Testamento. Ela morreu em Auschwitz, uma das maiores tristezas da vida de Rookmaaker. Sua análise sobre o papel de Deus na história e a fé dos cristãos é uma leitura muito válida nos dias de hoje.

5) Curiosidade sobre a vida e as pessoas. Essa é uma das qualidades mais difíceis de escrever a respeito, mas também é uma das mais importantes e memoráveis virtudes de Rookmaaker. Há uma ironia aqui. Hans Rookmaaker era tímido e reservado. Não era exatamente sociável. No entanto, era fascinado pela vida e pelas pessoas.

Sua curiosidade sobre a música afro-americana era insaciável. É verdade que via um contraste marcante entre essa produção cultural e a sociedade “burguesa” que a rodeava. Assim, havia justificativas filosóficas para a música que Rookmaaker promovia, mas isso não escondia o fato de que ele a amava e não se cansava nunca. Isso vindo de alguém que era conhecido por ser desafinado! Se fosse convidado para ir a sua casa numa noite, teria que ouvir a Jelly Roll Morton uma vez atrás da outra.

Passou horas e horas seguidas investigando todos os estilos da história da arte. Todos os dias, procurava formas de refugiar-se em seu escritório e debruçar-se sobre seus livros. Era um frequentador assíduo em todos os museus importantes e sabia a localização das diferentes obras melhor do que os próprios guias.

Viajava muito e, em todos os lugares, conhecia pessoas novas e interessantes. Era fascinado por “todos os tipos e condições de homens” e mulheres!! Nada minimamente suspeito, mas muitas mulheres tinham-no como uma figura paterna e buscavam seus conselhos.

Um dos comentários mais provocantes, mas útil, de Rookmaaker foi:  Jesus não veio para salvar as pessoas e sim para torná-las humanas. Sabemos o que queria dizer. Quando morreu, um de seus amigos da InterVarsity resumiu assim sua vida e trabalho: “É maravilhoso como Deus pôde usar alguém tão humano.”

***

Traduzido por Mariane Lin.

Texto originalmente publicado no site de Kirby Laing Centre. Reproduzido com permissão.

Dr. William Edgar é professor de apologética no Seminário Teológico de Westminster, Philadelphia, e professor associado da Faculdade Jean Calvin, em Aix-en-Provence. É o autor de diversos livros, incluindo Created and Creating (IVP Academic, 2016).

Volumes individuais de The Complete Works of Hans Rookmaaker, publicados pela Piquant (https://piquanteditions.com), estão disponíveis na Amazon, nos EUA e no Reino Unido.

Os editores são gratos a Marleen Hengelaar-Rookmaaker e Pieter e Elria Kwant por fornecer as fotografias de HRR. Reconhecem, gratos, permissão para reproduzi-los com os seguintes titulares dos direitos autorais: Marleen-Hengelaar, Sylvester Jacobs e John Walford.

Leia mais:
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Eu leio Rookmaaker
» Celebrando a vida com arte 


[1] Marleen Hengelaar-Rookmaaker, ed., The Complete Works of Hans Rookmaaker (Carlisle: Piquant, 2021).

[2] A maioria de nós estava preparado para seus textos mais conhecidos, A Arte Moderna e a Morte de Uma Cultura; Jazz, Blues e Spirituals; O Dom Criativo e outros. Mas talvez não esperássemos “Nosso Chamado em um mundo Pós-Cristão” ou “Ultranaturalismo” (vol. 6. 163, 252) e muitos outros textos.

[3] Veja, por exemplo, Jonathan Anderson & William Dyrness, Modern Art and the Life of a Culture (Illinois: IVP Academic, 2016).

[4] Linette Martin, Hans Rookmaaker: A Biography (Londres: Hodder & Stoughton, 1979), 113.

[5] H.R. Rookmaaker, Modern Art and the Death of a Culture (Londres: IVP, 1970), 16-17.

[6] Rookmaaker, Modern Art, 132-133.

[7] Ver Marleen Hengelaar-Rookmaaker, ed., The Complete Works of Hans Rookmaaker, vol. 2 (Carlisle: Piquant, 2003), 157-316.

[8] H. R. Rookmaaker, Jazz, Blues and Spirituals: The Origins and Spirituality of Black Music in the United States (Phillipsburg, NJ: P & R Publishing, 2020).

[9] Rookmaaker, Jazz, Blues and Spirituals, 213-214.

[10] H. R. Rookmaaker, Art Needs No Justification (Vancouver: Regent College Publishing, 2010).

[12] E. John Walford, Great Themes in Art (New York: Prentice Hall, 2002).

[13] E. John Walford, Jacob van Ruisdael and the Perception of Landscape (New Haven: Yale University Press, 1992).

[14] Ver Peter Smith, The Way I See It (Carlisle, UK: Piquant Press, 2009).

[15] (Grand Rapids: Eerdmans, 1971).

[16] “The Bible’s Portrait of History,” em Marleen Hengelaar-Rookmaaker, ed., The Complete Works of Hans Rookmaaker, vol. 6 (Carlisle: Piquant, 2003), 9.

[17] Suas ideias são descritas em seus escritos. Encontram-se concentrados em Complete Works, vol. 6, 5-87.