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H.R. Rookmaaker: O que é Realidade?

H.R. Rookmaaker: O que é Realidade?

Significado Inesgotável

O que é realidade? Como podemos compreender a realidade que vemos e o mundo em que vivemos? Essas são questões muito importantes, que me tocam profundamente. Minha experiência é que os assuntos tratados nesta palestra são muito, muito difíceis. Se levar vinte anos para entendê-los, você é muito rápido. Eu não tenho soluções para os problemas que estou levantando. É algo que temos de desenvolver ainda por muitos anos. De fato, é uma tarefa das gerações vindouras refletir sobre essas questões. Se estivermos aptos para respondê-las, teremos achado a chave para a solução de muitos problemas e tensões em nossa cultura Ocidental.

Deixe-me começar com um exemplo. Pense no tempo de nossos avós. Como as pessoas do século XIX passavam as férias? Era de costume que eles pegassem o trem para Basle, mudassem de trem para Luzern, trocassem para um trem local e finalmente desembarcassem em uma pequena estação. O assistente do hotel que eles estavam indo visitar estaria os esperando, assim como ele fez nos últimos 25 anos, já que todo ano eles iam para o mesmo hotel. Quando chegavam, diziam: “Sabemos que o jantar é às 18h, então ainda temos um tempinho para dar um passeio”. Eles caminhavam pelo mesmo trajeto que fizeram por muitos anos e quando voltavam diziam o quão agradável foi ver todos aqueles lugares bonitos novamente. Disseram também que sentiram falta de uma árvore em particular e o homem respondera: “Sim, em novembro do ano passado nós tivemos uma grande tempestade que a derrubou”. Juntos, o dono do hotel e nossos bisavós, lamentavam por aquela árvore.

Estou lhes dizendo isso pois estas coisas realmente aconteciam no passado. As pessoas iam para os mesmos locais de novo e de novo. Por eles irem frequentemente para o mesmo lugar, começavam a entender a realidade daquele lugar. Por isso, passavam a amar uma árvore em particular, de forma que poderiam derramar lágrimas por ela não estar mais ali. Para eles, é uma espécie de pequeno buraco no Universo. Algo estava faltando.

A realidade não está simplesmente ali; nós temos de conhecê-la e adentrá-la. Quanto mais fundo nós vamos, mais a entendemos e a compreendemos, mais começamos a amá-la, mais real ela se torna e mais lágrimas derramamos quando ela não está mais presente. Assim, podemos dizer que realidade é “fato” + “significado”. Uma “árvore” são os fatos que sabemos sobre ela, são os átomos — e assim por diante — mais o seu significado.

Mas sistematizar a realidade desta forma não está totalmente correto, pois os fatos vêm de uma outra estrutura de pensamento. Eu prefiro dizer que a realidade é significado. Então, o que é um fato? Um fato é aquilo que todos nós concordamos. Se um fato é algo que todos nós concordamos, então isso parece óbvio. Entretanto, o que tenho aprendido é que uma palavra com a qual sempre temos de ser muito cuidadosos é a palavra "óbvio". Quando alguém diz que algo é óbvio, podemos esperar uma afirmação mais duvidosa. 

Realidade é significado; ela é cheia de significado. Eu poderia dizer muito mais coisas sobre a árvore: o fato dela ter significado nela mesma por ter sido criada por Deus e que ela tem muitas funções — uma árvore pode ser usufruída por pássaros, nós podemos sentar sob sua sombra, podemos cortá-la para obter madeira. A árvore tem muitas funções, mas ela vai além disso. Ela possui seu próprio significado que, por sua vez, é inesgotável. Tão variado que nunca iremos compreender totalmente. Se conversarmos sobre as montanhas onde essas pessoas passavam suas férias, então é uma realidade tão forte, com um significado tão profundo e um conteúdo tão diverso que, ainda se essas pessoas fossem lá por mil anos, elas ainda descobririam coisas novas e, cada vez, ficaria mais interessante.

 

Abrindo os olhos

Nós não sabemos o que vemos — que é a visão mais comum do nosso tempo — mas, pelo contrário, nós vemos o que sabemos. Por que essas pessoas, caminhando pelo trajeto por  detrás do hotel, viram que a árvore não estava lá?  Porque elas conheciam a árvore. Se alguém diferente fosse neste lugar não sentiria falta dela, pois ele ou ela não saberiam que ali havia uma árvore.

Se eu colocar uma quantidade razoável de pessoas em um quarto por uma quantidade razoável de tempo e depois perguntar a eles o que viram, então uma pessoa, que sabe bastante sobre mobília, falará sobre os diferentes tipos de mobília daquele quarto. Outra pessoa que conhece bastante sobre papel de parede falará sobre papel de parede. Outros verão apenas os livros e, se eles souberem bastante de Teologia, serão aptos para dizer exatamente a qual escola teológica o dono do quarto pertence.

Assim, nós vemos o que conhecemos. Isso significa, por implicação, que não vemos o que não conhecemos. Mas isso quer dizer que estamos presos: só vemos o que conhecemos e nunca mais veremos além? Não, porque podemos expandir nosso conhecimento vendo de forma criativa. Se olharmos muito atentamente e usarmos nossa imaginação, podemos expandir nosso conhecimento. Por exemplo, digamos que alguém lhe dê um relógio. Você não conhece muito sobre relógios e está interessado em saber como eles funcionam. Você o abre, mas não consegue ver como o alarme funciona. Logo, você o examina cuidadosamente e usa sua imaginação: se aquele lá vai assim, então aquele outro vai dessa forma e, portanto, ele toca. Assim que você tiver visto isso, você passa a conhecer e nunca mais esquecerá.

Há uma história verdadeira muito interessante sobre uma senhora idosa que todo ano, por 25 anos, viajava dos Estados Unidos para Amsterdam a fim de ver A Ronda Noturna.  Um homem chegou para ver a pintura e eles começaram a dialogar sobre ela. Então, ele disse: “aquela garota é tão intrigante” e ela respondeu “que garota?”. Por 25 anos ela vinha olhar A Ronda Noturna, mas nunca tinha visto essa garotinha. O homem disse “a garota bem ali” e, daquele momento em diante, ela nunca mais deixaria de notá-la, porque agora a mulher sabia que a criança estava ali. Por que ela não a viu antes? Porque não estava olhando criativamente. É parte da tarefa do artista plástico abrir nossos olhos e nos ensinar a ver coisas que não víamos antes, tornando-as visíveis. À maneira deles, essa também é a tarefa do escritor e do filósofo. Como seres pensantes, todos nós podemos acrescentar ao conhecimento da humanidade e abrir os olhos de outra pessoa. Poderíamos dizer que ensinar é abrir os olhos.

 

Santorio

Nossa realidade mudou. Aquela história sobre como as pessoas costumavam passar as férias, por exemplo, conta sobre um tempo que é passado. Hoje em dia, todos nós dirigimos 8.000 quilômetros para passar as férias. Parece que corremos sempre muito rápido na tentativa de agarrar alguma realidade. Porém, mal chegamos a algum lugar, começamos a nos instalar, conhecer as coisas e já fugimos novamente. Nós fugimos da realidade; tentamos manter contato com ela, mas temos medo desse contato. Talvez porque a realidade é muito forte — assim como em O Grande Abismo de C.S Lewis, as pessoas recém-chegadas ao céu não podiam nem levantar uma maçã, porque era muito pesada. Era uma realidade muito forte. Da mesma forma, a realidade em que vivemos é muito pesada para as pessoas do século XX. Minha pergunta é: por quê? Em todos os livros de história podemos ver que uma grande mudança ocorreu na história Ocidental e que a nova era começou em algum período depois da Idade Média, aproximadamente entre 1300 e 1650. Isso significa que levou 350 anos. Foi uma mudança muito profunda. Antes desse período, o mundo era diferente do que passou a ser depois.

Nós, como cristãos, de um certo modo, pertencemos à era antes da mudança, porém, de outro modo, também à era posterior, já que passamos por uma completa lavagem cerebral, por meio da nova compreensão da realidade, que tirou a realidade de nós — e isso é crucial. Sabemos menos sobre ela; nós a perdemos. Nós poderíamos dizer que meus bisavós, com suas formas de passar as férias, ainda pertenciam ao velho mundo e que, a etapa final da grande mudança, ocorreu bem recentemente com a revolução do nosso século.

Para deixar claro o que mudou, eu quero contar uma história fascinante. Em 1614, um homem chamado Santorio, um médico muito inteligente em Veneza — que passou sua vida inteira realizando experimentos científicos e trabalhando nos problemas que estou discutindo aqui — publicou o livro De Medicina Statica Aphorismis [Aforismos sobre a estatística médica]. Quando o livro foi publicado, fora lido por todos os cientistas notórios daquele período e todos disseram que Santorio era doido. Alguns falaram que ele deveria ser colocado em um asilo, outros, por sua vez, que a Inquisição deveria investigá-lo, já que ele era perigoso. Ninguém sequer tentou verificar se o que ele disse era verdade, uma vez que todos já estavam completamente convencidos do contrário.

Então, foi isso que Santorio fez: pegou uma cadeira e a colocou em uma grande balança. Havia uma mesa na frente dela a qual não estava na balança. De manhã cedo, ele colocou uma mulher na cadeira, logo após ela ter acordado, e deu a ela o café da manhã. Algo incrível aconteceu. O quê? A balança mostrou que ela ficou mais pesada.  Todos disseram “Isso é impossível! Sabemos que, de manhã, você acorda pesado, de forma que quando você come, fica mais leve. É por isso que você se alimenta e toma um café ou um chá — para se livrar do peso do sono!”

Isso mostra que todos nós nos tornamos materialistas que contam o número de átomos e que, antes de 1614, as pessoas pensavam de forma diferente. Isso faz parte da mudança ocorrida entre 1300 e 1650.

Galeno, Mondino, Vesalius and Harvey

As narrativas a seguir são a mesma história, apenas um pouco mais complicadas e importantes. É uma história a respeito do coração.

O que é o coração? A Bíblia nos ensina que devemos amar o Senhor, nosso Deus, com todo o nosso coração. O coração é a fonte da vida. Dele procede tudo de bom e mau que fazemos. Quando você ama alguém, você perde o seu coração a ponto de dá-lo à pessoa amada.

Cláudio Galeno pensava sobre o coração no contexto da medicina antiga. Assim, o que ele dizia é bem complicado para se entender, da mesma forma que é complicado compreender o porquê de se tornar mais leve quando você toma o café da manhã. Galeno disse que existe uma espécie de líquido produzido no fígado, que partiria dele e chegaria ao coração e, neste último, adiciona-se ar quente que vem dos pulmões (há ali uma espécie de fogareiro que queima e esquenta o ar) e, assim, o espírito é adicionado ao líquido — no sentido de estar vivo e cheio do espírito (no latim, a palavra spiritus pode significar tanto “ar” quanto “espírito”).

Este sistema explica tudo perfeitamente, desde que nunca se olhe para dentro do corpo. Por exemplo, o que acontece quando você fica animado? Seu coração começa a bater mais rápido, você fica vermelho e uma chama começa a queimar dentro de seus olhos. Isso acontece porque há mais espírito. Quando está um pouco doente e bem cansado, você fica branco porque seu coração pulsa devagar e, por isso, não há muito sangue nem muito espírito vindo do coração. Mas, então, eles começaram a dissecar os corpos, exatamente em 1300. Aqui está uma das razões para eu ter dito que a mudança começou nesse ano.

Um professor da Bolonha chamado Mondino foi a primeira pessoa a fazer Anatomia. De acordo com o antigo sistema de Galeno, há sangue indo de uma cavidade do coração para a outra e isso significa que tem de haver uma abertura entre as duas partes do coração. Mondino escreveu sobre esta fresta, mesmo que ela não exista. Mas você vê o que conhece — eles sabiam que ali havia um buraco, portanto eles viram um. Eles poderiam ter facilmente descoberto que o buraco não estava lá, porém todo seu sistema teria desmoronado.     

Por sua vez, Vesalius, o maior anatomista que já existiu, publicou seu livro por volta de 1550. Quando foi publicado, o anatomista não recebeu boas críticas. Muito pelo contrário. Ele foi profundamente criticado porque uma das coisas que ele disse foi que não há uma cavidade no coração. Ele era o médico da corte do reino espanhol e, por isso, o rei não queria vê-lo mais. Ele foi quase aprisionado e morreu na pobreza porque ninguém se interessou pelas coisas estranhas que ele dizia. As pessoas eram bastante convictas naquele período — como atualmente. Se você disser que não acredita na Teoria da Evolução ou no subconsciente, você é considerado louco, porque essas coisas são consideradas “óbvias”. Não! Elas não são óbvias; elas têm um ponto de interrogação.

Em 1628, 328 anos depois de 1300, William Harvey publicou seu livro. Harvey foi um médico em Londres que passou sua vida inteira desenvolvendo um novo sistema. Ele o ensinou aos seus estudantes, os quais falaram que ele deveria publicá-lo. Recordando-se do que havia acontecido com Santorio e Vesalius, ele se recusou inicialmente. Depois de muita pressão, concordou em escrever um livreto que parece ser muito maçante e bastante técnico. Porém, neste, Harvey explica que o antigo sistema não funciona e assim fala sobre circulação pulmonar e circulação sistêmica. Na primeira, o sangue vai para o pulmão e capta o ar; já na segunda, ele segue para o restante do corpo. Isso significa que tem de existir duas câmaras no coração. No curso do seu desenvolvimento, Harvey disse “pelo amor de Deus” — foi o único momento do livro que ele ficou animado — “vocês precisam entender que o coração é uma bomba”. Ele usou exatamente essas palavras. O coração é uma bomba, a bomba da circulação sanguínea. Isso significa que, depois desta mudança, somos advertidos a amar ao Senhor, nosso Deus, com toda nossa bomba! Essa é a mudança e esse é o problema da nova era.

Como nós reconciliamos o novo sistema com o antigo? Eu não quero descartar o que foi descoberto desde 1300. Eu realmente acredito que, no corpo, o coração é uma espécie de bomba. Entretanto, não acho tolo dizer que temos de amar o Senhor nosso Deus com todo nosso coração. Mesmo assim, não quero dizer que, neste caso, o coração seja apenas um símbolo —  pelo menos, não se “símbolo” significar algo que não é tão importante, porque, na verdade, eles são e, também, personificam o verdadeiro significado das coisas.

Então, o que é o coração? Como podemos reconciliar o conhecimento científico com o conhecimento bíblico — ou Gênesis 1 com a Teoria da Evolução? Esses são os tipos de questões que temos de responder se quisermos resolver o problema da nossa geração.

 

Antes a mudança

Owen Barfield escreveu um livro chamado Saving the Appearances [Salvando as aparências]. A Ciência está salvando as aparências: ela vê algo, te diz como isso funciona e explica o que você vê. O termo foi bastante utilizado na Idade Média. Neste livro, Barfield discorre sobre várias formas de “participação”, que também é um termo muito arcaico. No paganismo antigo, tudo era uma “participação” na realidade, o que significa que deuses e espíritos participavam nela. A consequência é que a pedra não é só uma pedra, mas ela está carregada de um tipo de poder. Há poderes nas águas, nas árvores etc. É por isso que havia ídolos, que eram estátuas carregadas dos maiores poderes.

A Bíblia nos conta exatamente o oposto: que Deus criou o mundo. Este é um conceito libertador, pois, se nossa realidade é criada, não há participação, o que significa que não há poderes e deuses nela. O Sol nos dá vida e calor, mas não é um deus. É uma criatura. É por isso que podemos investigar a realidade. Não precisamos temê-la. Somos livres para usar e explorar as coisas.

O sistema medieval conhecia um pouco da participação. Era um sistema cristão, mas não completamente. Na verdade, era vitalista, o que significa que eles acreditavam que havia um tipo de “poder de vida” nas coisas. Se nós, hoje em dia, falamos sobre potência[1] em Física, é porque utilizamos um termo da Idade Média. Naquela época, as pessoas falavam sobre a qualidade das coisas e seus pensamentos eram substanciais e não funcionais. Isso significa que eles sempre questionaram: o que é a substância? Isto é, a realidade profunda das coisas diante de mim?

Agora, como isso funciona? Nós sempre perguntamos como as coisas funcionam e nunca o que elas são, porque, geralmente, isso é muito difícil de responder. O que é eletricidade? Todo cientista vai responder: “Quem se importa com o que é eletricidade? A questão é como ela funciona”.

Quanto à interpretação da Bíblia e da literatura, o homem medieval distinguia entre um sentido literal, moral, alegórico e analógico. Ele falava que o significado simbólico é igual ao literal, pois este é o que expressa a essência e a substância das coisas. Nós ainda pensamos desta forma quando vemos a bandeira: é impossível de separar o tecido com suas cores e listras do significado da bandeira. Mas, no geral, o material e o simbólico se tornaram algo diferente para nós.

Muitas pessoas acham — e eu não sei de onde esse mito surgiu — que na Idade Média acreditava-se que a Terra era plana. Mas, neste tempo, todos sabiam que ela era uma bola. A Terra é uma esfera, em torno dela orbitam a Lua, os planetas, o Sol e, então, bem longe dali, há um grande círculo, ou esfera, e é ali que estão as estrelas. A questão era: o que está por trás da esfera mais distante? Aristóteles acreditava neste sistema, mas ficava bem nervoso quando era questionado com essa pergunta tão difícil, então ele costumava evitá-la. Entretanto, para os cristãos medievais, essa era uma questão bem fácil de ser respondida: quando você chega atrás da esfera mais distante, lá está Deus. A beleza do pensamento medieval é que há um segundo sistema onde Deus está no centro e em torno dEle estão as esferas com querubins, serafins, arcanjos e anjos e, nos arredores, mais longe de Deus, onde já está quase escuro, lá vivem os seres humanos. Deus está no centro e o ponto de discussão é se a humanidade está dentro ou fora da Cidade de Deus. Claro que ainda mais longe da humanidade estava a matéria, tão distante que ninguém a mencionava. Portanto, há dois sistemas que são complementares, que juntos são um só, isto é, dois lados da mesma moeda: o sistema físico com a Terra no seu centro e o outro sistema com Deus no centro. Um belo sistema de mundo.

 

Uma nova perspectiva

Assim, vem o novo sistema, uma nova perspectiva emerge. No Renascimento, por exemplo, as pessoas começaram a retratar as coisas como elas viam, enquanto, na Idade Média, elas as pintavam em símbolos. Na pintura medieval, você tem um símbolo de árvore, porém agora os artistas começam a pintar a árvore como eles a veem. No entanto, a nova perspectiva não é limitada somente à arte, ela muda lentamente a maneira de pensar como um todo.

A Reforma tentou contra-atacar o novo movimento e desenvolver um outro sistema, um mais bíblico. De certa maneira, ainda estamos buscando isso. A Idade Média fez uma divisão entre natureza e graça. No Renascimento, as pessoas começaram a desconectá-las, para que, dessa forma, o reino natural pudesse ser livremente desenvolvido. A Reforma tentou reuni-las novamente, de maneira que não houvesse divisão entre elas, porque a real divisão não é entre uma realidade superior e uma inferior, mas entre o Criador e a criação.

A Reforma começou a entender que tudo é um e que Deus está envolvido com toda a realidade; não só com o reino da graça: que, por exemplo, Deus age na história e que Cristo veio para nos fazer humanos, não para nos fazer cristãos. A Reforma advogou sobre a plenitude da realidade e da humanidade. No entanto, ela não foi capaz de vencer a maré, e a nova teoria humanista foi desenvolvida mais ainda até chegarmos em Descartes e Locke, os dois grandes filósofos do Iluminismo. Agora, as coisas são vistas como autônomas, separadas de Deus; as pessoas partem da ideia de seres humanos autônomos, que usam sua razão e refletem sobre uma natureza autônoma, na qual leis eternas se aplicam, como 2 + 2 são 4. Não importa o que você seja, católico romano, protestante, muçulmano, ateu, não interessa: 2 + 2 são 4. É uma verdade eterna. Quando Descartes disse isso pela primeira vez, por volta de 1620, todos riram e disseram: “Descartes, você sabe que a única coisa que é eterna é a Palavra de Deus. Todo o resto é transitório. É muito bobo dizer que “2+2=4” é uma lei eterna. É provavelmente um fato verdadeiro, mas é só isso. Isso não é muito importante e, com certeza, não é eterno”. Mas, para Descartes, era muito importante: seu próprio pensamento e as chamadas “leis eternas” eram as únicas coisas que ele poderia ter certeza. Locke, então, veio e popularizou esse tipo de pensamento, que é baseado nisto: nós conhecemos o que vemos. Assim, a realidade é um grande X, não sabemos nada sobre ela e, por fim, as linhas de percepção alcançam nossos olhos e nós, com nossos cérebros, fazemos as ideias e a realidade dentro de nós.

Isso significa que as pessoas do Iluminismo fizeram do conhecimento da realidade algo dependente de suas visões. Neste sentido, o conhecimento deles se tornou reduzido e, no final, acabaram com uma cosmovisão reduzida. Muitas coisas foram tiradas. Pense sobre Elias, por um instante, quando ele orou pela chuva. Ele mandou seu servo morro acima e disse a ele para procurar as nuvens. Bem, o garoto olhou as nuvens e disse: “Veja! Deus está fazendo o que ele prometeu!”. Agora nós diríamos: “Eu vejo formas que, com meu cérebro, deduzo que sejam nuvens e, então, direi para o meu mestre que as nuvens estão vindo”. Isso é o que todos nós poderíamos dizer. A experiência nos ensinou que a chuva normalmente vem das nuvens, por isso sabemos quando ela está chegando. Mas está implícito que Deus está trabalhando, ainda que não vejamos com um olhar humano. Alguém pode provar isso?

Então, reduzimos nosso entendimento sobre a realidade de várias e várias formas.

 

Realidade Reduzida

Qual é o resultado dessa nova forma de entendimento da realidade? Em primeiro lugar, é que não há participação. Deus ou espíritos não têm relação com a realidade, porque as coisas existem ali objetivamente. Isso significa que eles estão ali, mesmo que Deus ou nós não estejamos. Francis Bacon disse que uma pesquisa deveria ser feita como se as coisas fossem máquinas. Devemos tratar o mundo como uma máquina, ou seja, de forma completamente objetiva. Portanto, as pessoas começaram a se referir à Criação como um relógio. Deus criou o mundo da mesma forma que o relojoeiro criou o relógio; e, então, ele foi embora. Agora, as coisas acontecem apenas porque devem acontecer. Não há liberdade nisso, elas só acontecem; estamos todos presos em uma grande máquina chamada Natureza. Isso também implica que tudo é neutro.

Claro, você pode ter sua religião; se você quiser orar, por favor, ore; se você quiser ir para o céu, por favor, vá. Mas, se falamos sobre coisas importantes, como Economia, Política, Ciência ou conhecimento verdadeiro, apenas usamos nossas percepções e nossos intelectos.

Essa foi uma mudança profunda no pensamento. Além disso, todos nós sofremos uma lavagem cerebral e, talvez, seja a lavagem cerebral mais pesada que tenha ocorrido na história registrada. Todo registro histórico é feito desta forma: o senhor A fez isso e o senhor B fez aquilo e isso aconteceu; mas ninguém te diz o porquê e quais foram os motivos — dos quais provavelmente foram religiosos. Então, você fica com a sensação de que eles fizeram o que fizeram sem motivo nenhum. Também acreditamos que a fotografia, que é uma imagem da realidade tirada por uma máquina, é uma imagem verdadeira que pertence à mesma neutralidade.

O século XVIII, a época do Iluminismo, foi também o período do Pietismo, o qual é a raiz do evangelicalismo Anglo-Saxão. Os pietistas ainda pensavam com dualismo “Natureza e Graça” e, portanto, deixaram toda a área da natureza para o mundo. Em outras palavras, estavam muito felizes em discutir Ciência usando apenas suas percepções e intelectos, porque, para eles, a Ciência pertencia ao reino da Natureza. Isso significou que os pietistas nunca lutaram a batalha que deveriam ter lutado naquela época.

No sistema medieval, Deus está no centro com as esferas em torno dele e na esfera mais distante a matéria está localizada. O pensamento medieval começava com Deus e o resto é sua criação. “Não”, disse o Iluminismo, “a única coisa que é realmente real e certa é a matéria”. Ela se tornou o ponto inicial do pensamento iluminista. É por isso que você fica mais pesado quando toma o café da manhã. O acontecimento de você ficar mais leve é subjetivo e incerto, mas o de você ficar mais pesado é objetivo e verdadeiro para todos. A única coisa que é certa são os fatos. Mas os fatos são a realidade reduzida. Átomos são uma abstração de uma abstração. A humanidade é um átomo que olha para seu próprio umbigo; um estranho átomo que inventou Deus. Agora nós começamos com os átomos e terminamos com Deus.

Peter Gay disse sobre Diderot — que foi um dos grandes homens do Iluminismo: o pensamento do século XVIII libertou o homem de sua dependência filial de Deus, colocando-o como parte da natureza. Mas a antropologia filosófica dos filósofos franceses, a qual promoveu o homem da servidão de Deus, de forma muito irônica o rebaixou ao mesmo nível: da posição de um pouco menor que os anjos para uma posição entre os animais inteligentes. Enquanto o homem parecia prestes a conquistar o domínio mundano por meio de sua inteligência crítica, ele se deparou com uma segunda expulsão de seu paraíso terrestre. Neste tempo, o anjo vingador era o próprio homem! As pessoas pensaram que tinham atingido a maturidade e se tornaram os seus próprios deuses, mas acabaram sendo só animais. Diderot estava muito preocupado com isso. As pessoas sabiam que havia algo de errado e que este novo sistema iria matá-los.

Exatamente quando Harvey disse que o coração é uma bomba, o misticismo do coração começou: a devoção ao Sagrado coração de Maria e Jesus. As pessoas tentaram salvar o coração no momento em que foi perdido. Os modernos tentam preencher essa lacuna. O museu de Arte Moderna é um grande clamor de protesto: “Eu sou um ser humano! Louco, irracional, sem substância, no entanto somos o que somos”. O que nós vemos é a crise dos seres humanos clamando por humanidade.

Além disso, se a única coisa real são os átomos, então todo o resto é criação humana, incluindo sistemas morais e estatais. Mas, se eles são somente criados pela humanidade, podemos mudá-los se não nos agradam. Os pensamentos do Marxismo revolucionário de fazer novas estruturas vêm desta ideia. A realidade é apenas nossas formas de pensamento projetadas no mundo exterior. Susanne Langer, uma escritora fascinante, escreveu um livro no qual descreve sobre estas coisas. Ela diz: “A nova forma de olhar o mundo não é resultado da Ciência. Na verdade, a Ciência é o resultado de uma nova maneira de ver o mundo. A verdadeira mudança é a nova forma das pessoas verem a realidade”. Ela continua dizendo que o homem moderno tem essa atitude diante do mundo: uma completa submissão ao que ele concebe como fato concreto e sem emoção. Portanto, trocar ficções, fé e sistemas construídos por fatos é o seu valor supremo e, consequentemente, sua explosão periódica de desmascaramento das tradições (sejam religiosas ou lendárias), sua satisfação com o Realismo Concreto na Literatura, sua desconfiança e impaciência com a poesia e, possivelmente, no nível crítico e ingênuo da mentalidade mediana, a paixão pelas informações. Elas nos dão fatos “neutros”, mas, na verdade, somos manipulados por eles, porque as informações nos dão apenas os fatos.

O que ela fala sobre a satisfação com Realismo Concreto é muito interessante, especialmente se você pensar sobre os livros que já foram escritos nos últimos vinte para trinta anos com uma descrição explícita do sexo. Por que no passado isso não era descrito assim? Por duas razões. Em primeiro lugar, porque era bastante carregado de significado. Era uma realidade tão forte que não podia ser descrita. E, segundo lugar, porque não havia necessidade disso. Por que você descreveria o sexo? As pessoas teriam achado que as descrições quase que pornográficas de hoje seriam aquém da realidade. Isso não é o que acontece, pois há um encontro ilusório entre duas pessoas que defraudam a representação do ato sexual. Além disso, de acordo com Susanne Langer, o conflito não é entre fé e ciência, porém entre fé e uma nova fé, um novo entendimento do mundo com a ciência como fonte da Revelação. Se, por exemplo, eu disser que não acredito na Teoria da Evolução, as pessoas dirão: “Mas a ciência já provou isso”. O que a “ciência provou”? O que a prova significa e quais são suas implicações? Mas, se alguém disser: “A ciência já provou isso”, todos se curvam e assim a discussão acaba, porque nós conhecemos os fatos. Mas eu digo “não” a isso.

 

A ciência falsifica a realidade

Agora eu vou para o ponto principal de toda minha palestra: se você aceitar os métodos e princípios da ciência moderna, a Bíblia não é verdadeira. Dois anos atrás, eu estava em um grupo de grandes amigos meus, bem crentes, e eu disse essa mesma frase. Dez minutos depois, um deles afirmou: “Mas você disse que a Bíblia não é verdadeira”, porque é considerado óbvio que os princípios e métodos da ciência moderna são verdadeiros. E eu digo “Não, é exatamente o contrário. A Bíblia é verdadeira e, portanto, eu tenho perguntas importantes sobre eles”. Note que eu sou bem cuidadoso para não dizer “os resultados da ciência moderna”. Se ela desenvolveu, vamos dizer, o plástico, eu tenho que aceitar o plástico. Se ela me disse que há uma circulação sanguínea, eu aceito a circulação sanguínea. É bem difícil não fazer isso. Contudo, eu não aceito seus princípios e métodos. Eu sinto que eles nos apresentam falsificações da realidade. Quando eu digo: “se você aceitar os métodos e princípios da ciência moderna, a Bíblia não é verdadeira”, eu poderia igualmente dizer, “Homero não é verdadeiro” ou “o Alcorão não é verdadeiro.” Eles não são verdadeiros, porque são todos contos de fadas sem qualquer significado. Toda literatura é jogada ao mar, pois não possui significado algum, e, então, a Bíblia, a qual é mais do que só literatura, é certamente descartada. 

É um conflito entre duas cosmovisões distintas, duas compreensões do mundo. Essas coisas não são somente problemas difíceis que os filósofos têm de lidar, elas são realidades da vida. Há uma falta de motivação entre os alunos. Por quê? Porque a realidade não é interessante. Por que a realidade não é interessante? É só um amontoado de fatos, sem significado, sem participação em nada.

Todos nós conhecemos a permissividade, em que não há mais normas. As pessoas podem agir como quiserem. Os impulsos do homem natural são as únicas coisas reais. Eu acho que o Bob Dylan formulou isso de maneira muito bela quando ele canta sobre o “homem magro”. As pessoas modernas não têm mais nenhuma realidade dentro delas. Acredito que isso é também uma das explicações do porquê as pessoas usam drogas. Os entorpecentes diminuem nossa percepção da realidade de forma que esta não é mais uma ameaça, porque independente do que pensamos sobre ela, a verdadeira realidade continua ali. Ela se torna algo muito estranho e, por vezes, é muito forte. Esse é o motivo de dirigirmos tão rápido durante nossas férias e o porquê da nossa estadia não ser prolongada: porque a realidade é muito carregada de significado. E isso está em discordância com nosso entendimento de realidade.

Além disso, não há participação e, por isso, temos tanta dificuldade na esfera política. Meu bisavô disse: “Eu amo a rainha”. Por que ele a amava, sendo ela uma pessoa que ele nunca viu em sua vida? Ele a amava porque ela era o centro da nação. Ele amava a nação porque era algo de uma unidade que ele podia participar. Havia valores implícitos. Hoje nós dizemos: “Não, todo mundo é igual. A rainha é só mais uma mulher”. Barfield escreve o seguinte sobre a igualdade social: “Somos iguais precisamente no sentido de que somos independentes, alienados e isolados uns dos outros”. Somos assim enquanto somos isolados um dos outros. Mas, quando começamos a nos reunir uns com os outros, nossas diferenças e qualidades particulares, isto é, nossas desigualdades, aparecem. Assim, começamos a nos tornar uma unidade, porque sabemos que este trabalho deve ser feito por esta pessoa e aquele por uma outra com qualidades diferentes. Essa ideia de igualdade é também a razão pelo qual as pessoas começaram a fazer algo maluco: eles começaram a investigar os ratos para descobrir como a sociedade humana funciona!

 

Redescobrindo a realidade

Resumindo: qual é o problema? É que nós temos de reencontrar ou redescobrir a realidade. Precisamos entender que muita coisa está envolvida nisso. Também significa compreender o sofrimento e o que a dor e a morte são. Se entendermos a realidade e começarmos a amá-la, então a dor vem; podemos chorar pela árvore sem sermos sentimentais. Perdemos esse entendimento, porque temos muito pouco de realidade. Ser um cristão significa adentrá-la, temos uma tarefa aqui.

A Bíblia nos dá uma compreensão real sobre a realidade; nos dá muito mais que fatos proposicionais. Na verdade, a Bíblia não nos dá quaisquer fatos (pela percepção moderna destes) porque ela nos conta a verdade sobre as coisas. Nos ensina uma mentalidade, uma atitude e nos dá uma forma de compreender o mundo. Mas não é só uma visão de mundo antiga, pelo contrário, ela nos mostra o mundo no seu sentido e significado mais profundo. Michael Polanyi escreveu um livro muito importante, o qual todos nós precisamos ler, chamado Conhecimento Pessoal, porque verdade e entendimento são imanentes e temos de tentar fugir da objetividade, pois ela é despersonalizada. O que é verdade? Cristo disse: “Eu sou a Verdade” e Ele nos disse para fazer o que é verdadeiro. Então, a verdade não é algo estático, uma afirmação objetiva sobre um mundo exterior factual, ao invés disso é algo em que nós mesmos estamos envolvidos. É pessoal e está em relacionamento com Deus. Verdade, realidade, vida, amor, beleza, retidão e liberdade são palavras tão boas que mal podemos defini-las. Elas são as realidades mais profundas possíveis, muito mais profundas e mais básicas que “2 + 2 são 4”. Essas são realidades que tentamos agarrar para entender o mundo. Mesmo que nunca sejamos capazes de defini-las científica ou objetivamente, podemos dizer muitas coisas sobre elas, que são verdadeiras e importantes.

Para finalizar uma pergunta: o que é água? Água é a bela cachoeira com seu lindo som e, se olhar para cima, você verá o sol e, consequentemente, um arco-íris aparecer. No entanto, água é também o mau cheiro de um fosso. Água é a chuva que toca seu rosto. Água são os grandes mares, potentes e poderosos. Algumas semanas atrás, todos na Holanda estavam tremendo, porque houve grandes tempestades e a pergunta foi: a água irá ultrapassar os diques? Isso significa morte, destruição, inundação, perigo. Porém, água também é o líquido que se dá ao sedento. Água é todas essas coisas e muito mais. Os poetas escrevem sobre isso desde o começo da história e eles não esgotaram o conhecimento sobre água! “Não”, dizem as pessoas modernas, “nós vamos te dizer o que é água: é H2O”. Esse é o problema que devemos considerar e tentar resolver. Sim, água é H2O, não obstante, é muito mais que isso. O coração é uma bomba, todavia eu ainda quero poder dizer que amo o Senhor, meu Deus, com todo meu coração.

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Tradução: Pedro Lourenço e Micaela Nunes

Revisão: Milena Rocha e Talita Neres


[1] A palavra no original aqui é “power”, que, geralmente, traduzimos como “Força”. Neste contexto, traduzimos como “Potência”, pois é o verbete que usamos na Física.